SRI AUROBINDO E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - Georges van Vrekhem

Em 1942 Sri Aurobindo escreveu a um discípulo: “Afirmo fortemente a você que esta é a guerra da Mãe. Você não deve pensar nela como a luta de certas nações contra outras; é a luta por um ideal que tem de ser estabelecido na terra, na vida da humanidade; é a luta por uma verdade que ainda tem de ser realizada plenamente e contra uma escuridão e falsidade que estão tentado dominar a terra e a humanidade no futuro próximo. São as forças atrás da batalha que devem ser vistas e não esta ou aquela circunstância especial.”

E continuou: “É uma luta para desenvolver a liberdade da humanidade, por condições nas quais os homens tenham liberdade e espaço para pensar e agir de acordo com a luz que existe neles, e crescer na Verdade, crescer no Espírito. Não pode haver a menor dúvida de que, se um lado vence, será o fim dessa liberdade e da esperança de luz e verdade, e o trabalho que deve ser feito (de ajudar a humanidade a evoluir) ficará sujeito a condições que o tornariam humanamente impossível. Haverá um reino de falsidade e escuridão, uma cruel opressão e degradação para a maior parte da raça humana, tais como as pessoas da Índia nem sonham e nem podem ainda perceber.”

Sri Aurobindo e a Mãe disseram repetidamente que Hitler era possuído por uma emanação de um dos grandes Asuras, “o Senhor da Falsidade”, que chama a si mesmo de “o Senhor das Nações”, e que ele agia como seu instrumento.

“O problema é salvar o mundo da dominação das Forças Asúricas”, disse Sri Aurobindo em setembro de 1939. “Seria terrível ser dominado pelos nazistas ou fascistas. Sua dominação traria sobre a humanidade o que são chamados de os Quatro Poderes do Inferno – obscurantismo, falsidade, sofrimento e morte. Sofrimento e morte significam os horrores da guerra.”



Os quatro grandes Asuras, dos quais Sri Aurobindo e a Mãe sempre falaram com respeito, eram o contrário, no começo da evolução cósmica, dos atributos divinos essenciais que são Luz, Verdade, Vida e Felicidade.

Hitler foi guiado pela visão inspirada a ele por seu Senhor, e aquela visão compreendia o mundo todo. Para ele, os arianos alemães eram a raça mestre, que tinha o dever de submeter todos os outros povos e governar a Terra. Ele, Adolf Hitler, era o Messias alemão, enviado com a missão de guiar seu povo em direção a uma idade de ouro, o Império de Mil Anos. Como os alemães eram o Povo Escolhido, não havia lugar para outro povo que se proclamasse ser escolhido, como os judeus, que tinham portanto de ser eliminados por quaisquer meios.

As aquisições humanas da inteligência, liberdade individual e fraternidade social, junto com as virtudes da alma, não mais tinham importância. Elas tinham de ser substituídas pelas qualidades do poder, força física, crueldade, insensibilidade e outras atitudes que favoreceriam a dominação global dos arianos brancos.

Como cada Deus contém em si mesmo todas as outras qualidades de todos os outros Deuses, assim também cada Asura contém em si mesmo todas as qualidades antidivinas dos outros Asuras. Falsidade, ignorância, sofrimento e morte nunca existem separadamente, embora possam ser dominantes de acordo com as circunstâncias. Na Índia os seres que são estes poderes são conhecidos como “Asuras”, os poderes cósmicos antidivinos que dizem ser mais velhos que os Devas (Deuses) e que lutam contra eles pelo tempo que a Divina Providência permite ou julga necessário.

Esta batalha entre as Forças do bem e do mal é o tema principal da mitologia de todos os povos. No Ocidente os mesmos quatro flagelos são conhecidos como “os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”.

Isto nos leva diretamente a Hitler, agindo sob a inspiração do Senhor da Falsidade, e o pano de fundo da Segunda Guerra Mundial que necessitou da intervenção direta de Sri Aurobindo e da Mãe. É a intenção dos Asuras, ainda senhores da evolução terrena, manter seu reino sobre a Terra e todos os seres sobre ela, pois sua existência depende dessa dominação.

A batalha entre os Asuras e os Deuses tem sempre sido, em essência, uma luta a respeito da possibilidade de evolução sobre a Terra. Os Asuras querem manter as coisas como estão, pois eles prosperam na escuridão e ignorância; os Deuses querem construir o caminho da evolução que, da escuridão e ignorância, levará de volta à Luz, Verdade e Bem-aventurança Divinas. A humanidade alcançou o ponto crítico de transformação num ser divino, supramental, superior.

Esta transformação é a causa do trabalho de Sri Aurobindo e da Mãe. A sequência de guerras mundiais quentes e frias do século XX, vista nessa luz, adquire um significado que explica os enormes atos de destruição e morte, e até mesmo a ameaça de extinção da humanidade. Além disso, nossa era pós-moderna é uma época de confusão.

O que quer que aconteça na história, disse Sri Aurobindo sobre o progresso do mundo que “voltar é impossível, a tentativa é sempre, realmente, uma ilusão”. Mas neutralizar a única possibilidade de progresso agora presente na humanidade era precisamente a intenção do Senhor da Falsidade que, em primeiro lugar, causou uma onda de anti-iluminação e anti-intelecto, chamada fascismo, e que, em segundo lugar, inspirou Hitler com programa similar.

Disse Sri Aurobindo na época, “Na guerra, o lado de Deus é o lado espiritual. A Alemanha de Hitler não é o lado de Deus. É o lado dos Asuras, que objetivam a dominação do mundo. É a descida do mundo Asúrico sobre o humano para estabelecer seu próprio poder sobre a Terra. Hitler não queria manter em movimento a roda da história, ele queria voltá-la para trás”.

Hitler escreveu em seu livro: “Se a natureza não deseja que indivíduos mais fracos convivam com os mais fortes, ela deseja ainda menos que uma raça superior se misture com uma inferior, porque em tal caso todos seus esforços, através de centenas de milhares de anos, a fim de estabelecer um estágio evolucionário superior podem ter sido fúteis. Minha pedagogia é impiedosa. O que é fraco deve ser esmagado. Quero meus jovens fortes e belos, dominadores e corajosos. A livre e magnífica fera que se alimenta de carne deve brilhar em seus olhos. Deste modo, apago os anos de domesticação humana e obtenho o puro e nobre material da Natureza. E serei capaz de criar o que é novo.”

A Alemanha se tornou uma sociedade uniformizada, exercitada, militarizada, que seria “o punho do Fuehrer” e “a espada de Deus” (Hitler sempre se convenceu de que estava cumprindo fielmente as instruções de seu “Deus”). A Alemanha se tornou o estado nazista rígido, armado, agressivo, formidável. Mas “uniformidade é morte, não vida”, escreveu Sri Aurobindo, para quem a liberdade individual era um princípio absoluto sem o qual o verdadeiro crescimento é impossível.

A maior parte das pessoas não sabiam o que Hitler realmente pretendia, não percebiam que se não pertencessem à raça branca ariana dominadora, teriam de polir suas botas. Especialmente as raças não-brancas, taxadas como animais, eram objeto de seu desprezo. O tratado com os japoneses foi apenas uma questão de oportunidade, pois diziam os nazistas por trás que eles eram um tipo de macacos amarelos.

Quando Hitler estava no auge de seus poderes, em 1940 e 1941, ele tinha, de acordo com Sri Aurobindo, “cinquenta por cento de chance de ser bem sucedido”. Sri Aurobindo diz claramente: “Ele é o inimigo de nosso trabalho”. E nos dias dos maiores triunfos de Hitler, Sri Aurobindo disse: “Não há chance para o mundo a menos que algo aconteça na Alemanha ou então que Hitler e Stalin lutem entre si”. E também: “Agora apenas a morte de Hitler pode salvar a situação.”

Esboçando os movimentos táticos de Hitler em outubro de 1940, Sri Aurobindo comentou: “Então Hitler vem para a Ásia Menor, e isso significa a Índia”. Aquela movimentação de Hitler através dos Bálcãs e do sul da Rússia, por um lado, e através do norte da África, por outro, pretendia alcançar a Índia, o que está agora abundantemente documentado. Se Hitler tivesse vencido, a evolução do mundo, em seu mais crítico estágio, teria sido voltada atrás “por séculos, se não por um milênio”.

Agora a Índia está livre, as nações asiáticas ocuparam seus lugares entre as nações do mundo, o mundo está evoluindo, a espiritualidade da Índia está penetrando na mente do Ocidente, e as estradas para o futuro, quando o homem se tornará um super-homem, permaneceram abertas.

Poucos sabem do papel que “o sábio de Pondicherry” e sua companheira, a Mãe, tiveram para tornar tudo isso possível. Sri Aurobindo, em seus poemas autobiográficos, fala sobre seus ferimentos que foram “mil e um”, causados pelos ataques dos “Reis Titãs”. Ninguém soube de suas batalhas, exceto quando num tal ataque sua coxa foi quebrada. Ninguém soube ou sabe sobre o trabalho sobre-humano que Sri Aurobindo e a Mãe fizeram pelo 
mundo.


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